Cadê a Vila Santa Isabel que estava aqui?

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O que determina o nome de um bairro? É a sua história, seus pioneiros, seus moradores? Ou será o mercado imobiliário?



A exploração imobiliária, não contente apenas em chegar à Vila Santa Isabel, está empenhada em apagar o nome do bairro do mapa da cidade de São Paulo.

Pouco a pouco, a Vila está desaparecendo. Moradores de ruas centrais do bairro, como a avenida Norberto Mayer, que antes recebiam suas correspondências para a Vila Santa Isabel, agora encontram Vila Carrão em seus endereços. A praça Jardinópolis, as ruas Geraldo Correia, Piramboia, Lobo, Lutécia passaram a ser consideradas como Alto do Carrão. Nome com o qual algumas correntes imobiliárias estão querendo rebatizar a Vila. Ruas como a Dirceu e a Benedito Galvão constam como pertencentes a um tal de Jardim Fernandes. O mesmo acontece com partes da rua Picinguaba, que na era dos tapetes era uma das rotas a serem percorridas pelo cortejo.

Quem são os autores da canetada que está fazendo a Vila Santa Isabel desaparecer? Por que até os Correios abraçaram a ideia de apagar a Vila de seus registros?

Um bairro que teve delegacia de polícia, posto de saúde, linhas de ônibus, atividades gastronômicas e culturais que atraíam visitantes dos vários cantos da cidade. Um comércio intenso, composto por inúmeros mercadinhos, cinco padarias, seis açougues, cinco bancas de jornal. Todos funcionando simultaneamente. Clientes não faltavam.

A capela ao redor da qual se formou o bairro transformou-se numa das mais belas igrejas da América Latina, tendo sido projetada pelo mesmo arquiteto da Basílica de Aparecida do Norte. As festas de Santa Isabel atraíam turistas e romeiros de  todo os cantos do Brasil. Estimava-se, à época, a presença de mais de 150 mil visitantes durante os tapetes de serragem. O bairro teve publicação própria, o Eco de Santa Isabel. Somando-se a esses eventos, os shows do Barros de Alencar, no Cine Santa Inês e os concursos de Bandas e Fanfarras, que a Prefeitura cogitou transferir para o Memorial da América Latina. 

A exploração imobiliária tem profundos interesses em apagar o nome original da Vila. Afinal, é mais atraente para as vendas dos imóveis associá-los às vilas Formosa e Carrão, bairros com maior apelo publicitário.

Com isso,  a Vila corre um seríssimo risco de se tornar um bairro que só existe no imaginário popular, não mais no papel. Como o Bixiga, no centro da cidade. A única diferença é que a Vila Santa Isabel ainda existe. Basta uma consulta aos guias de rua antigos para constatar que a Vila sempre esteve lá. O Bixiga jamais existiu oficialmente.

O progresso é voraz e inevitável. Especialmente em São Paulo, onde continuará transformando bairros cheios de vida em lugares impessoais, meros agrupamentos de prédios e condomínios, cujos moradores mal conhecem o vizinho. Como aconteceu com vários lugares do Tatuapé. Moradores que raramente saem de casa a não ser dentro de um automóvel. Entupindo ruas com automóveis, pouco se importando se o lugar tem ou não capacidade para trânsito intenso. 

Isso não é justificativa para se varrer 70 anos (completos neste ano) da bela história de um bairro para debaixo do tapete. Os mais pessimistas estão comentando que a Vila Santa Isabel já desapareceu. 

Que se interrompa e se reverta esse processo o quanto antes. Apagar a Vila Santa Isabel do mapa, rebatizá-la de Alto do Carrão ou coisa que valha, de forma arbitrária, sem qualquer consulta popular, significa desprezar uma parte modesta, porém não menos importante, da história de São Paulo. Caso contrário, chegará, muito em breve, o dia em que a Vila será apenas uma remota lembrança do passado. Como o estado da Guanabara.     
                                                                                                                               Rogério de Moura

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